20 junho, 2014

Desconhecido na estrada

Quem era ele? Eu o vi pela janela do ônibus, tinha uma turminha alegre e seu cabelo insistia em cair na frente de seus olhos. Pensei diversas vezes no que ele poderia ser, se tinha alguém com quem se importar, se era feliz, se poderia encontrar algo melhor, mais empolgante que aquele momento... Pensei mil coisas enquanto esperava a estrada ser liberada.

Aquelas malas, eles só poderiam estar esperando um ônibus, parecia ser uma viagem de fim de semana com a turma e sinceramente, senti  uma ponta de inveja, queria poder viver aquele momento pelo menos por alguns minutos. Sempre estive tão sozinha que uma roda de amigos e namorados sempre me fazia querer tudo aquilo pra mim, fazer parte de alguma coisa era como acreditar em contos de fadas, era tão insólito e eu não podia fazer parte daquilo, algo me deixava excluída de uma vida social.

E instantaneamente meu outro lado dizia: Grande coisa! Posso ser melhor!

Mais talvez eu não pudesse...

Minha adolescência inteira era de sentir pena ou algo parecido. Eu era a excluída do colégio, sem amigos, excluída das festas e da tentativa de encontrar alguém. Ou eu tinha algum tipo de bloqueio ou era pra eu ser realmente assim...

E eu voltava ao pensamento inicial: Ele provavelmente nunca se importaria com alguém como eu.

Aquela garota de longos cabelos ondulados fazendo cafuné nos cabelos lisos dele só poderia ser sua namorada, ou pelo menos era o que aparentava ser. Mais uma vez minha ponta de inveja vinha à tona: Eu queria estar ali! Mundo injusto...

Enquanto eu observava aquela turma o motorista do ônibus esperava pacientemente a estrada ser liberada, pouco tempo depois o ônibus seguiu em frente e na longa estrada até o meu destino os pensamentos me invadiam, levando-me a refletir sobre o que sempre quis e nunca pude ter. Havia sido um ano tão solitário que não me importava se o momento era ou não fiel, só queria vivê-lo, sentir o gostinho da felicidade simples e curiosa.

Passei boa parte do trajeto lembrando aquela cena, eu queria ter aquilo pra mim, fazer parte! Ser a garota de cabelos longos, que o carinha de cabelos nos olhos fosse meu namorado e que fossemos fazer uma viagem inesquecível com nossa turma de amigos, mais isso só nos meus sonhos porque a realidade sempre foi outra, eu era só a gora sentada num ônibus observando de longe.

Nunca havia   visto alguém assim, bastaram alguns minutos pra eu querer estar entre eles ou ser um deles, as garota confiante, alegre e insubstituível.

Passaram-se meses depois daquele dia, no entanto ainda lembro daquelas pessoas esperando no ponto de ônibus, esperando algo que nunca poderei saber... Um fim de semana na praia, no campo, uma viagem de volta pra casa... Sei lá, nunca saberei, mais quis tudo aquilo pra mim como sempre quis ser a Cinderela.

Aquele garoto... Aquele destino... Aqueles amigos...

Só posso desejar que alguém encontre meu sapatinho de cristal. Ah! Eu calço 36!

Patrícia Muniz
Se copiar, credite!

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